![]() | “Esta austeridade não presta, nem aqui, nem em Espanha, nem na Itália, nem na França” |
![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() | Abri e Maio - agora e aqui "Estou-me nas tintas para as críticas. Ser de esquerda é uma imprudência" [Luciano Alvarez, Público.pt, 05-06-2008] | 0 comentários O socialista Manuel Alegre desvaloriza as críticas do seu partido e diz que encontro da esquerda foi "um acto renovador". Recusa, porém, dizer se vai ter continuidade A festa/comício acabou já depois da meia-noite de terça-feira. Manuel Alegre abandonou o Teatro da Trindade entre abraços e cumprimentos. Sorria. Para trás ficava uma noite que descreveu como um "acto renovador". Ainda antes de sair da sala aceitou dar uma curta entrevista ao PÚBLICO. Valorizou a festa e desvalorizou as críticas que lhe foram feitas pela direcção do PS por ter participado no encontro ao lado do Bloco de Esquerda: "Estou-me nas tintas para as críticas", afirmou, acrescentando que "ser de esquerda é uma imprudência".
PÚBLICO - Com que energia é que sai deste encontro? [Manuel Alegre tinha acabado de assistir a uma actuação da banda de música Terrakota, que pedia aos espectadores que unissem as energias positivas contra as negativas] Manuel Alegre - Com uma energia nova. Com a energia da festa. Foi o renascer da esperança, da alegria, das canções cantadas em comum. Portugal precisa de mais esquerda. Uma festa em que a sua participação ao lado do Bloco de Esquerda não agradou à direcção do PS, que lhe fez algumas críticas. Estou-me nas tintas para as críticas. Ser de esquerda é uma imprudência. Verdadeiramente, sou imprudente desde a minha juventude. É uma imprudência, mas é bom. É uma festa. Dirigiu-se às pessoas que estavam noutra sala por não caberem no Teatro da Trindade dizendo-lhes que iriam encher outras salas no futuro. Este encontro vai ter continuidade? Vai haver outras reuniões de esquerda? Foi uma maneira de dizer. É admirável que as pessoas tenham aguentado ali [na outra sala]. Encheram-se duas salas. Agora, aqui não há agenda escondida, nem nada programado. O que se fez hoje foi um acto renovador. Ouvi-o dizer a algumas pessoas que poderiam ter enchido o Coliseu dos Recreios. Acredita que era possível? Sim, sim. Podiam ter enchido o Coliseu, podíamos mesmo, mas só havia esta sala. Mas estes encontros são ou não para continuar? Por agora não há nada a dizer sobre isso. Isto foi um acto novo, foi, em si mesmo, um acto cultural. Um acto que quebrou tabus e abriu portas. As pessoas gostam de estar juntas. E, individualmente, vai continuar a apontar o que acha que está a ser mal feito pelo Governo. Já não é a primeira vez que aponto. Olhe: energia. O que é preciso é energia. E no final ficou a ideia de que querem voltar a encher outras salas Assim que acabou de falar no Teatro da Trindade, Manuel Alegre, na companhia dos outros dois oradores da noite (José Moura Soeiro, do BE, e a professora universitária Isabel Allegro Magalhães), dirigiu-se à outra sala ali perto, onde estavam os que não couberam no teatro lisboeta. Alegre foi recebido com uma enorme salva de palmas. O deputado socialista lembrou que os discursos já tinham sido feitos, mas deixou uma frase que acabaria por marcar a noite: "No futuro encheremos outras salas." Mais tarde, o próprio Alegre desvalorizaria as suas palavras. Mas elas estavam ditas e indicavam que aquela noite de terça-feira, de forte protesto contra as políticas do Governo, que uniu alguns socialistas, muitos membros do BE e gente avulsa de vários movimentos de esquerda, pode não ficar por ali. Os organizadores, encabeçados por Alegre, chamaram ao encontro 1974-2008/Abril e Maio/Agora Aqui. Apelidaram-no de festa e de evento cultural, mas o que se assistiu foi a um comício à velha maneira da esquerda: música e discursos políticos puros e duros. Só faltaram mesmo os punhos erguidos no ar, fossem esquerdos ou direitos. O alvo da noite: o Governo do socialista José Sócrates e as suas políticas. E se alguém entre as 500 pessoas que encheram o teatro e as outras cerca de 150 que assistiram noutra sala via televisão pudesse ter alguma dúvida sobre isso, o socialista Manuel Alegre, o último a falar, matou-as em definitivo. "O grande défice é social" O poeta falou em "alertas". Mas os "alertas" foram setas permanentes lançadas ao Governo. E começou logo com as políticas económicas, que ocuparam uma grande parte do seu discurso de 20 minutos: "A grande questão é saber como inverter a política económica neoliberal (...) Como equilibrar as finanças públicas e o défice orçamental sem criar desigualdades sociais." As políticas sociais também não ficaram de fora, com Alegre a dizer que "o grande défice continua a ser o social". "E há outros défices na igualdade, na distribuição dos rendimentos, na Educação, no primeiro emprego para os jovens, défice de esperança no futuro", acrescentou. "Os factos são teimosos e exigem humildade", disse Alegre, citando o socialista espanhol Tierno Galvan. A esquerda, o ser de esquerda, foi igualmente realçado nas palavras do poeta, que manifestou a sua convicção nos valores da esquerda: "Contra o capitalismo, o socialismo, contra a direita dos interesses, os valores da esquerda e a esquerda dos valores". Pare ele, "vários tabus e preconceitos" foram quebrados com a realização deste encontro. E um deles foi o de que "as esquerdas não podem reunir-se" ou "só podem fazer o que lhes ditam os bem-pensantes do politicamente correcto". As críticas da direcção do PS por participar no encontro ao lado do BE não ficaram em branco: "O meu compromisso é com os que passam um momento difícil como os milhares e milhares de portugueses que votaram socialista e estão agora no desemprego, com trabalho precário ou foram obrigados a emigrar." Alegre acrescentou logo de seguida que nunca pediu "licença a ninguém" para estar "onde quer nem com quem quer". "Hoje apeteceu-me estar aqui", terminou, aplaudido de pé pelos presentes - socialistas, comunistas, ex-comunistas, bloquistas e gente de outras esquerdas. Da aparelhagem sonora saía a voz de José Afonso. Muitos cantavam em coro. "Quando a corja topa da janela/O que faz falta/Quando o pão que comes sabe a merda/O que faz falta/O que faz falta é avisar a malta/O que faz falta..." José Soeiro Deputado do Bloco de Esquerda "As políticas de esquerda que garantam a justiça social e a igualdade não têm governado Portugal. Mas há uma maioria de cidadãos que precisa delas e que as reivindica. Aqui estão os portugueses que divergem noutras questões mas que se juntam pelo essencial: emprego, combate à precariedade, defesa dos serviços públicos, rejeição da guerra, direitos sociais dos jovens, das mulheres, dos imigrantes, das minorias, de quem trabalha". Isabel Allegro Magalhães Professora universitária "Este Governo, sendo socialista não é praticante. (...) Como alternativa às políticas da privatização da saúde e da educação é preciso valorizar a globalização da solidariedade a partir das muitas propostas dos fóruns sociais, que só necessitam de vontade política para serem postas em prática". |
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