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UM NOVO CAIM “Mário David” QUER MATAR UM NOVO ABEL, DE SEU NOME JOSÉ SARAMAGO
[MIC, 22-10-2009] | 1 comentário
Defendemos que a liberdade de pensamento nunca pode ser objecto de uma pena de banimento nacional ou social, de morte física ou cultural (Lara, já o fez), de prisão, ou outra qualquer ameaça à sua expressão plena, e quem, de qualquer modo, praticar, sugerir, sob qualquer pretexto, uma destas atitudes contra um autor por mais maldito que seja, é, em termos da sociedade fundada em Portugal com o 25 de Abril de 74 e depois confirmada na Constituição da República e em sucessivas eleições democráticas, um cidadão, que tem um comportamento reprovável, inaceitável numa comunidade social Europeia e Euro-americana. É um comportamento que mancha a nossa Democracia e a nossa Civilização.

O deputado europeu do PSD Mário David tem todo o direito a se indignar contra o livro de José Saramago, que considera um comportamento afrontoso para os Católicos, mas argumentos combatem-se com outros argumentos, e se fosse o caso até denunciando o que pudesse ser um acto de má fé, no que poderia seguir a linha de pensamento de alguns teólogos que referem que há a considerar as diferenças entre o novo e o velho testamento.

De qualquer modo o deputado do PSD, como a todos os demais deputados e membros de órgãos de soberania e executivo é exigido em todos os momentos um comportamento ético que não se coaduna com afirmações que relevam de um espírito assassino muito ao modo da personagem de Caim, que é o papel que este deputado assume, colocando-se ao lado dos intolerantes de todos os tempos: a Igreja Católica com o seu Índex, a Inquisição com os seus actos de fé, os Nazis com as suas fogueiras contra os livros, e o regime dos Botas da África do Sul, com o banimento social.

Por tudo isto, a Obra de José Saramago por mais discutível, infundamentada, até insultuosa e injusta que possa ser não envergonha nenhum português. É uma obra de ficção de um escritor, enquanto a afirmação do deputado David envergonha-nos a todos, porque um número significativo de portugueses votou num cidadão que não respeita a liberdade de expressão, um direito constitucional e civilizacional, e enfileira com as figuras mais negras da história do totalitarismo fascista e estalinista que o Mundo viveu.

Com Voltaire por mais que se discorde de uma ideia livremente expressa, um cidadão de bem estará disposto a dar a vida para defender a liberdade, para que essa opinião se exprima, mas nunca uma ameaça proto-fascista/estalinista, do tipo desta que este deputado profere, que começa a fazer alguma carreira em Portugal, contra quem tem a coragem de dizer o que pensa, sem nunca produzir um incitamento à violência.
 

[1] Será que o Sr. Deputado não quer renunciar à cidadania portuguesa?
João Pedro Bernardo, 2009-10-23 00:02:09
Creio que a tomada de posição do Sr. Deputado do PE Mário David é muito mais grave para imagem de Portugal do que a opinião de José Saramago sobre a Bíblia. Afinal de contas, o Sr. Deputado faz parte de uma instituição fundamental da democracia e a democracia implica liberdade de opinião e da sua expressão, mesmo que essa opinião possa para alguns tocar a blasfémia, ou atacar a sua fé religiosa. Não se pode condenar os ataques feitos aos autores das caricaturas de Maomé e o mesmo tempo, defender que um cidadão deve deixar de ser português porque tem uma opinião muito negativa sobre a Bíblia. Creio que este Sr. Deputado talvez gostasse de suspender a democracia por uns 6 meses para tratar de pôr na ordem os desviados portugueses que não partilham das aparentes convicções religiosas dominantes.

 
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