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![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() | A caminho do desastre O objectivo para este ano só é alcançável com medidas extraordinárias e em 2012 dificilmente haverá medidas extraordinárias que possam camuflar o fracasso desta política [Jorge Bateira, iOnline, 06-10-2011] | 0 comentários A notícia de que o défice orçamental estimado pelo INE para o primeiro semestre do ano já representa, em valor absoluto, 70% do valor previsto para a totalidade do ano foi a mais importante da semana passada. Como seria de esperar, o governo, os seus parlamentares e os comentadores que têm lugar cativo no espaço nobre das televisões, todos se mostraram surpreendidos. No entanto, um mínimo de discernimento deveria ter obrigado esta gente a pedir informação específica sobre a evolução da receita e da despesa. O facto de as notícias não dizerem nada sobre a variável que nenhum governo controla – as receitas resultam do funcionamento da economia – é um indício de que a recessão está a sabotar os planos do governo. Daí o imediato anúncio de medidas extraordinárias.
Os cidadãos podem não saber nada de economia, mas já perceberam que o discurso público sobre o Orçamento de 2012 pretende prepará-los para algo que nunca imaginaram quando deram a maioria a esta coligação de direita. Na linguagem cifrada do ministro das Finanças, serão tomadas “medidas permanentes e estruturais para 2012 e anos seguintes”. Ou seja, o governo vai proceder a reduções na despesa pública (salários, pensões, despedimentos) de tal magnitude que, descontado o efeito da recessão sobre as receitas fiscais, o objectivo do défice para 2012 seja alcançado. Para mal do país, a economia acabará por mostrar, mais uma vez, que os governos podem controlar a despesa, mas não o défice.
Se o objectivo para este ano só é alcançável com medidas extraordinárias, em 2012 dificilmente haverá medidas extraordinárias que possam camuflar o fracasso desta política. A suspensão do investimento público, a sangria do rendimento das famílias, com destaque para os funcionários públicos, o desemprego crescente, a eliminação do crédito às pequenas empresas, a estagnação das economias para onde mais exportamos e a degradação crescente das receitas fiscais, tudo se conjuga para um estrondoso incumprimento dos objectivos centrais do memorando. É triste, mas é preciso dizê-lo, a economia portuguesa encaminha-se para o precipício pela mão de obstinados seguidores da religião neoliberal, pela mão de um governo que começa a dar sinais muito claros de querer condicionar a expressão pública do protesto e da indignação. O povo português vai passar por uma experiência verdadeiramente traumática. Os que à esquerda mantiverem um discurso defensivo, centrado em causas ou medidas particulares, ou os que derem prioridade à preservação a qualquer preço da sua respeitabilidade perante os poderes da UE, todos eles ficarão sujeitos a um severo julgamento pela maioria dos cidadãos. Para que o país possa dispor de um horizonte de esperança, o discurso das esquerdas tem de ser convergente, claro e global: repúdio deste memorando e exigência de negociações para o financiamento de uma política de relançamento da economia. Não sendo isso possível no quadro institucional e político da UE, o país deve anunciar uma reestruturação unilateral da dívida e preparar a saída da zona euro. Muito provavelmente, é isso que a Grécia fará nos próximos meses. Em todo o caso, qualquer que seja a evolução da zona euro, os portugueses não podem considerar-se condenados a anos sem fim de “austeridade permanente e estrutural”. O país, maioritariamente, identifica-se com os valores inscritos no preâmbulo da sua Constituição da República. A eles voltará depois de se livrar dos sacerdotes e acólitos da religião neoliberal a quem, em má hora, permitiu o acesso ao governo do país. Economista, co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas Escreve quinzenalmente à quinta-feira |
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