“É preciso repensar os critérios monetaristas que estão a contaminar a Europa”
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A secção "Opinião publicada" deste sítio é uma montra de artigos relevantes, publicados nos media, com indicação do autor e da fonte. É mais um contributo para o debate. A selecção de textos é da nossa exclusiva responsabilidade e não envolve os autores dos textos seleccionados.

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Uma candidatura autónoma e abrangente
Alegre sabe que a sua candidatura terá de conquistar segmentos não só da esquerda, mas do centro e até da direita
[Elísio Estanque , Público.pt, 07-02-2010] | 0 comentários
A candidatura presidencial de Manuel Alegre (MA) continua a suscitar controvérsia. Há os que o apoiam, os que o rejeitam, e agora, perante o facto consumado, surgem também os apoiantes "condicionais". O dr. Vital Moreira (VM) é um destes casos. Na sua crónica no PÚBLICO (26/01/2010) afirma que o PS não se pode "render sem condições" a Manuel Alegre, e que só mediante "um compromisso" tal candidatura pode obter "convictamente" o apoio dos socialistas. Na verdade o que VM pretende é que o PS "controle" MA, ou seja, se não se consegue impedi-lo, então que se lhe imponham condições.

Do alto da sua sapiência, enumera todo um rol de desvios "esquerdistas" e de "ingratidões" de MA ao seu partido. Alguém que nem é militante (ao que se sabe), no seu excesso de zelo, lança diversos anátemas a Alegre, um histórico do PS que ajudou a formatar a matriz social-democrata do partido.
O rol de atributos apontados a MA no citado texto é bem ilustrativo da reserva mental do deputado europeu. Acusações como a "separação política e ideológica" do PS e a "afinidade electiva com a esquerda radical" só podem vir de quem ignora a cultura pluralista do PS e não é capaz de admitir nenhum dos erros do anterior Governo de Sócrates. As aproximações de MA ao Bloco foram pontuais e justificadas. O "óbvio gaullismo"/tentações nacionalistas de MA e sua "hostilidade" à integração europeia não passam de afirmações gratuitas. MA afirmou repetidamente a sua crítica à tecnocracia e ao excessivo peso da economia financeira, a submissão à cartilha da OMC, mas também a defesa de uma Europa solidária, com instituições mais abertas aos cidadãos, uma democracia mais ampla e intensa, o que, perante a crise que hoje enfrentamos, se prova que foram críticas certeiras.
Se a aura de "esquerda" de Alegre brilhou mais na última legislatura, foi porque as políticas governativas do PS se pautaram por uma deriva de direita em diversos domínios, que MA teve a coragem de criticar. Foi justamente com essa postura de autonomia que consolidou o seu espaço de figura presidenciável. É verdade que o BE tenta aproveitar-se da situação na sua disputa com o PS. Compreende-se a necessidade disso. Mas a confusão é fictícia e deliberadamente fabricada, inclusive por alguma comunicação social.
Se, por acaso, MA aceitasse, respeitosa e disciplinadamente, as "directrizes" vindas do Largo do Rato, como pretende VM, seria não o MA que conhecemos, mas uma caricatura de si mesmo, que os portugueses rejeitariam. Alegre é quem é, e não pode vestir a pele de um socrático, para satisfazer o dr. VM ou outros que alinham no mesmo coro.
Como candidato vencedor que pretende ser, MA sabe com certeza que a sua candidatura tem de ser abrangente e terá de conquistar segmentos não só da esquerda, mas do centro e até da direita. Para tanto, só tem de mostrar o seu enquadramento na matriz ideológica do socialismo democrático, o seu apelo à cidadania activa e a sua consciência social dos problemas que assolam o país, a Europa e o mundo.

Centro de Estudos Sociais - Universidade de Coimbra
Elísio Estanque é membro do Conselho Geral do MIC
 

 
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