![]() | Manuel Alegre:"Consenso, para quê? Para destruir a democracia?" |
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textos seleccionados. A culpa [Luís Martinho do Rosário, JN, 09-12-2006] | 1 comentário Perplexos, os cidadãos protestam contra um assalto sem precedentes aos seus direitos sociais. A economia mundial está cada vez mais desregulada e as desigualdades e assimetrias são cada vez maiores. As políticas governamentais (de ontem e hoje) atingem assalariados, trabalhadores precários, pequenos empresários, pensionistas modestos, desempregados, grupos profissionais vitais e minorias, ignorando olimpicamente a tributação social de grandes empresas com lucros milionários, do capital financeiro (os bancos gozam de absurdos privilégios fiscais e as operações especulativas não são tributadas) e dos profissionais liberais, cuja riqueza e fuga ao fisco são, em muitos casos, ostensivas.
De quem é a culpa? Alguns dirão que é dos próprios cidadãos, que sustentam o sistema político. Mas esta reacção, característica da cognição rápida armadilhada reconhecida por M. Gladwell e outros, não se aplica a uma realidade transnacional e globalizada, em tudo semelhante à portuguesa. Afinal, e para nosso conforto, a homogeneização do espaço político português tem paralelo em “democracias” clássicas (trabalhistas vs. conservadores no Reino Unido) e, mesmo, modernas (democratas vs. republicanos nos EUA). Em Portugal, hoje, a escolha entre o PSD e a ala direita do PS parece ser puramente semântica. A razão profunda (a “culpa”) é a investida do neoliberalismo, iniciada nos EUA durante a reconstrução eufórica do pós-guerra, intensificada nos anos 80 com a liberalização do comércio internacional, adoptada pela Europa após a queda do Muro e reforçada pelo capitalismo de estado da China. Em particular, a União Europeia desmantela implacavelmente o Estado Social, duramente conquistado pelos trabalhadores e considerado uma conquista civilizacional. Tomando como pretexto a concorrência internacional, fá-lo, cinicamente, em nome da necessidade de preservação do modelo e das garantias futuras dos cidadãos. Atordoados, os cidadãos confundem-se. Compreende-se. Os agentes do neoliberalismo (partidos centristas, movimentos ventríloquos da direita, media ao serviço do capital e comentadores de serviço) forçam-nos ao espaço estreito do conformismo e do individualismo selvagem. Empenhados na sobrevivência quotidiana, não parecem ter reservas mentais para afrontar o monstro e reinventar a ideologia, entretanto desprezada pela maioria dos intelectuais, que não sentem as manifestações da luta de classes, ainda subterrânea mas já endémica. Pode dizer-se, aqui, que lhes falta a cognição rápida acertada de Gladwell. Qual é a solução? A participação alargada dos cidadãos na vida pública, não sendo em si uma “solução”, será sem dúvida um requisito para encontrar novos caminhos. Impõe-se a organização alternativa dos cidadãos motivados, na forma de movimentos em rede, associações cívicas e organizações não governamentais. Os movimentos e associações devem diferenciar-se dos partidos pelo seu carácter de grassroots, afirmando-se pela sua acção prospectiva muito embora não descurando uma intervenção activa na conjuntura política. É possível afrontar os poderes formais (veja-se a queda de Aznar em Espanha e a rejeição do Tratado Constitucional Europeu pelo voto rebelde). É possível lutar por políticas justas, como a Taxa Tobin, a retirada do investimento público da contabilidade do PEC, o Orçamento Participativo ou a desindexação do “desenvolvimento” municipal aos negócios de betão. É possível reforçar a democracia participativa, fazendo-a coabitar com a democracia representativa. Forçando literalmente os partidos a abandonar as suas trincheiras sectárias, abrindo-se aos cidadãos. Políticos lúcidos de nova geração, infelizmente poucos, têm um peso crescente no desenvolvimento de políticas sãs e na formação da opinião pública. É o caso de Al Gore e Ségolène Royal, que poderão contribuir para uma viragem decisiva nos EUA e em França. Em Portugal o “fenómeno Manuel Alegre” e o Movimento Intervenção e Cidadania (MIC) que se lhe seguiu são paradigmáticos. Não é inevitável sucumbir à “culpa”. [1] Culpa ou culpas? Carlos Alberto Bastos Gomes, 2006-12-12 01:39:25 Recenseei-me para votar em 1969.
Sempre votei e nunca faltei até nos referendos. A verdade é que nunca em quem votei foi governo. Será que a evidência que Luis Marinho apresenta no seu artigo é uma descoberta de agora? Quem tem posto os sucessivos governos no poder? Quem votou neles claro. "Em Portugal, hoje, a escolha entre o PSD e a ala direita do PS parece ser puramente semântica". Então das duas uma ou o PS não tem a maioria que apresenta na votação ou, e é possível, existem muitos PSD's infiltrados no PS. Termino com o título que dei a estas breves palavras. Culpa ou culpas? Boa noite. |
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